A JUSTIÇA NAS SAGRADAS ESCRITURAS


Parte 01

 

A IDÉIA DE JUSTIÇA NAS SAGRADAS ESCRITURAS


Este estudo é basicamente a busca da justiça nas Sagradas Escrituras, que se fará usando a ótica de Kelsen e Bittar, em suas análises sobre o assunto. Seguir-se-á por uma questão de delimitação do tema a orientação de Bittar quando diz:

Quando se procede ao resgate da Palavra dos Evangelhos em uma pesquisa deste perfil, quer-se, sobretudo, desvincular a justiça cristã dos usos sócio-históricos que recebeu (Catolicismo; luteranismo; calvinismo...). Assim, discutir justiça nas Sagradas Escrituras não é discutir o que, em determinados momentos históricos, se entendeu como sendo justiça cristã, pois, neste caso trata-se de investigar, muito mais os usos mundanos da palavra cristã, por camadas sociais, instituições, poderes constituídos, ideologias religiosas... do que o conceito oferecido pelos Evangelhos. Assim, deve-se desvincular como condição epistemológica desta pesquisa a idéia de justiça cristã, da justiça instituída como cristã no Império Romano após a adoção do cristianismo como religião oficial do Império por Constantino... da justiça praticada pelos senhores feudais como soberanos medievais que retiravam seus poderes de Deus... ou da justiça praticada pela Inquisição (Santo Ofício), fundado no séc. XI, que exercia poderes de julgamento sobre a vida das pessoas identificadas como hereges (jus vitae ac mortis), ou da justiça eleita como meta pelas Cruzadas que se dirigiram ao Oriente para guerrear em nome do Senhor [...]

Definido o estudo, separado todos estes acidentes históricos envolvendo os ensinamentos de Jesus Cristo, passar-se-á a analisar agora a idéia de Justiça nas Sagradas Escrituras.

Para estudar as idéias de justiça nas Sagradas Escrituras, é necessário fazer-se uma separação, entre a idéia de justiça no Antigo Testamento e a idéia de justiça no Novo Testamento.

O grande engano histórico de muitos pensadores é tomar a doutrina do Novo Testamento como sendo a continuação da doutrina do Antigo Testamento. Nesse sentido Jesus deixou bem claro que:

Ninguém põe remendo de pano novo em roupa velha, porque o remendo repuxa a roupa e o rasgo torna-se maior. Nem se Põe vinho novo em odres velhos; caso contrário, estouram os odres, o vinho se entorna e os odres ficam inutilizados. Antes, o vinho novo se Põe em odres novos; assim ambos se conservam.

Nesse caso roupa velha e odres velhos é o judaísmo. O pano sem remendos e o vinho novo representa o espírito do novo Reino de Deus.

Kelsen vê com clareza esta definição, mas, como descendente de judeus, não deseja afrontá-la.

 Diz Kelsen com relação à parábola do vinho novo em velhos odres:


[...] Mas é compreensível que os Evangelhos tentem ocultar o conflito entre a lei judaica vigente e a doutrina de Jesus. [...] A parábola nada mais significa que a admissão de que a nova justiça revelada por Jesus não é mais compatível com a lei de Moisés. [...] essa palavra também expressa a idéia de que uma nova justiça está substituindo a antiga lei.

Nesse sentido diz Bittar:

A doutrina do Evangelho acerca da justiça não é, em toda parte (Antigo e Novo Testamento), uniforme. Dessa Maneira, o que se há de reconhecer desde o início de tal investigação é o abismo que divisa o que os profetas e a lei mosaica dizem acerca da justiça e o que a doutrina crística diz acerca da justiça [...].

Antes de se enfrentar esta questão, necessário se faz conhecer outra verdade que faz parte da dissimulação a que Kelsen se refere quando afirma que os apóstolos procuraram ocultar o conflito existente entre a justiça da divindade do Novo Testamento e a do Antigo, culpando Moisés pelas obras de Javé. Mas esclarece Altavila, em sua obra Origem dos Direitos dos Povos, que a lei e a justiça do Antigo Testamento não era de Moisés e sim de Javé.

Diz Altavila:

Do Egito, não levou Moisés nem a idéia politeísta, nem a idéia política, porquanto, ao organizar o seu estado, não quis ser rei, nem admitir na chefia qualquer de seus filhos. A soberania do seu estado não residia na sua pessoa, nem na de seu sucessor. Residia em Javé que dissera: “Eu sou Senhor teu Deus, que te livrei da terra do Egito, da casa de servidão”.

O fato é que os historiadores recusam declarar, visando encobertar a verdade, que Javé não é o Deus de Jesus Cristo, pois são divindades opostas. Verdade que era do conhecimento dos primeiros Cristãos. Como se observa na seguinte nota da página 378 do final da obra “O que é Justiça?” de Kelsen:

O insuperável antagonismo que existe entre a idéia de justiça do Antigo Testamento (isto é, o principio da retribuição) e a justiça pregada por Jesus (isto é, o principio do amor) foi reconhecido já no início do segundo século por Marcião. Como conseqüência desse antagonismo, Marcião negou que Javé, o Deus dos Judeus, que criou o mundo e governava-o como legislador e juiz supremo, em conformidade com a justiça da retribuição, pudesse ser identificado com o Deus, pai de Jesus, que era desconhecido dos judeus e não é nem o criador deste mundo mau, nem seu legislador ou juiz – qualidades incompatíveis com sua essência: o amor.

Os primeiros cristãos conheciam esta realidade, mas com medo de serem crucificados camuflavam a informação. Caberá a Saulo, um perseguidor da mensagem cristã, homem extremamente instruído na legislação do Antigo Testamento e na cultura da época, convertido ao cristianismo, com nome de Paulo , entregar esta mensagem de forma velada.

Relata a Bíblia que Paulo perseguia os cristãos, inclusive foi encarregado da morte de São Estevão, um dos primeiros mártires da fé cristã. A conversão de Paulo é relatada nos Atos dos Apóstolos, um dos livros do Novo Testamento.
Com relação a conversão de Paulo, Leciona Bittar, em sua obra Teorias Sobre Justiça:

E Saulo, respirando ainda ameaças e mortes contra os discípulos do Senhor dirigiu-se ao sumo sacerdote. E pediu-lhe cartas para Damasco para as Sinagogas, à fim de que, se encontrasse alguns daquela seita, quer homens, quer mulheres, os conduzisse presos a Jerusalém. E Indo no caminho, acontece que, chegando perto de Damasco, subitamente o cercou um resplendor de luz do céu. E, caindo em terra, ouviu uma voz que lhe dizia: Saulo, Saulo, por que me persegues? E Ele disse: Quem és Senhor? E disse o Senhor: Eu sou Jesus, a quem tu persegues? [...] E ele, tremendo e atônito, disse: Senhor, que queres que faça? E disse-lhe o Senhor; levanta-te, e entra na cidade, e lá te será dito o que te convém fazer [...].

Paulo abre o enigma de sua conversão:

Se algum outro pensa que pode confiar na carne eu ainda mais; circuncidado ao oitavo dia, da raça de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu filho de hebreu; quanto à lei fariseu; quanto ao zelo , perseguidor da Igreja ; quanto a justiça que há na Lei, irrepreensível. Mas o que era para mim lucro eu o tive como perda, por amor a Cristo. Mais ainda: tudo eu considero perda, pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor. Por Ele, eu perdi tudo e tudo tenho como esterco, para ganhar a Cristo e ser achado nele, não tendo a justiça que vem da Lei, mas a justiça que vem de Deus.

Observa-se que Paulo não só renúncia a doutrina do Antigo Testamento, a que denomina “carne” mas nega que a Lei tenha vindo de Deus, porque todos acreditavam que a justiça que vinha da Lei fosse a justiça de Deus.
Então diz Paulo:

Outrora eu vivia sem Lei; mas, sobrevindo o preceito, o pecado reviveu e eu morri. Verificou-se assim que o preceito, dado para a vida, produziu a morte. Pois o pecado aproveitou a ocasião, e, servindo-se do preceito, me seduziu e por meio dele me matou. De modo que a Lei é santa, e santo, justo e bom é o preceito. Portanto, uma coisa boa se transformou em morte para mim? De Modo algum. Mas foi o pecado que, para se revelar pecado, produziu em mim a morte através do que é bom. Para que o pecado, através do preceito, aparecesse em toda sua virulência.

Paulo chama a divindade do Antigo Testamento de o “Pecado” procurando explicar que a Lei é boa, mas foi imposta à humanidade com um objetivo perverso, ou seja, o de levar todos ao afastamento total de Deus, porque conhecia a fraqueza humana, sabia que todos iriam pecar.

Explica Paulo:
Ora, se o ministério da morte, gravado com letras sobre a pedra, foi tão assinalado pela glória que os israelitas não podiam fixar os olhos no semblante de Moisés, por causa do fulgor que nele havia – fulgor, aliás, passageiro -, como não será ainda mais glorioso o ministério do Espírito? Na verdade, se o ministério da condenação foi glorioso, muito mais glorioso será o ministério da justiça.

Então Paulo chama esse ministério que deu a Lei, o ministério da condenação e morte. Mas Jesus ainda é mais contundente, ao falar para os judeus sobre o ministério do Antigo Testamento Ele diz:

Por que não reconheceis minha linguagem? É porque não podeis escutar minha palavra. Vós sois do diabo, vosso pai, Ele foi homicida desde o princípio e não permaneceu na verdade, porque nele não há verdade: quando ele mente, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai de mentira.

Desde então Jesus passa a ensinar os princípios que se deve ater para diferenciar a justiça de Deus e a justiça de Javé, os princípios necessários para que a humanidade saiba diferenciar entre a doutrina do Deus verdadeiro e a doutrina do deus mentiroso.

Sobre o conhecimento do Deus verdadeiro é o Apostolo João em sua primeira carta que ensina: “Nós sabemos que todo aquele que nasceu de Deus não peca; o Gerado por Deus o guarda e o Maligno não o pode atingir. Nós sabemos que somos de Deus e que o mundo inteiro está sob o poder do Maligno”.

Se o mundo inteiro jaz no Maligno então quem é o Maligno?

O Maligno nas Escrituras é aquele a quem o mundo está submetido, esse se revelou no Antigo Testamento a Moisés, conforme o livro do Êxodo capítulo 19 versículo 5 e seguintes, quando disse: “Toda a terra é minha, mas vós me sereis um reino de sacerdote”. E novamente em Isaias no capítulo 44, versículo 24 e seguintes, quando afirma: “Assim diz Javé (Iahweh) aquele que te modelou desde o ventre materno; eu Iahweh, é que tudo fiz [...] Sou eu que frustro os sinais dos augures e faço delirar o espírito dos adivinhos, que confundo o sábios e converto a sua ciência em loucura [...]”. E no livro do profeta Jeremias ele volta a afirmar no capítulo 27, versículo 5 em diante: “Assim disse Iahweh dos Exércitos, Deus de Israel. Falai assim a vossos senhores: “Eu fiz a terra, o homem e os animais que estão sobre a terra, por minha grande força e com meu braço estendido e os dei a quem me aprouve”.

E, por fim, esta mesma divindade se apresenta a Jesus Cristo, fato relatado pelo Evangelista Mateus no capítulo 4 versículos 1 e seguintes, da seguinte forma:

Então Jesus foi levado pelo Espírito para o Deserto [...]. Tornou o diabo a levá-lo a um monte muito alto. E mostrou-lhe todos os reinos do mundo com o seu esplendor e disse-lhe: ‘Tudo isso te darei, se, prostrado, me adorares’.Ai Jesus lhe disse: Vai-te, Satanás, porque está escrito ao Senhor teu Deus adorarás e só a ele prestarás culto.

Nesse sentido expressa Ronaldo Muñoz, em sua obra, O Deus dos cristãos:

[...] A questão capital para nós não é tanto se Deus existe, mas antes, qual o Deus verdadeiro [...]. Não é apenas se Deus existe ou não, mas, sobretudo que Deus é que existe; como podemos conhecê-lo e reconhecê-lo; como se faz presente em nossa vida e como age em nossa história [...].

Para solucionar este problema Jesus Cristo providenciou máximas que nos servem de critérios para avaliação entre o Deus verdadeiro e o Deus mentiroso, entre a justiça relativa do mundo e a Justiça absoluta do amor em Jesus Cristo.
A justiça de Jesus pode ser identificada na lição do professor Humberto Rohden:

Nenhuma sociedade organizada pode abrir mãos dos seus ‘direitos’, sob pena de cometer suicídio, ela só existe em virtude dos seus ‘direitos’; o direito, porém, é uma forma de egoísmo, e egoísmo gera violência. Só se a sociedade abdicasse dos seus ‘direitos’, tudo endireitaria; mas, enquanto ela faz valer os seus ‘direitos’, tudo está torto. O contrário do ‘direito’ é a ‘justiça’, que é praticamente idêntica ao amor. A ‘justiça’, no sentido bíblico, é invariavelmente a ‘justeza’, o perfeito ‘ajustamento’, a harmonia entre o indivíduo e o Universal, entre o homem e Deus, [...] Essa justiça, porém, é o perfeito amor, como aparece no primeiro e maior de todos os mandamentos, enunciado por Jesus.

O primeiro e maior mandamento ensinado pela justiça de Jesus Cristo é o amor a Deus e ao próximo como a si mesmo, sem preferência.

Jesus Cristo comprovou o amor de Deus vivendo as máximas ou princípios básicos, capacitados a proporcionar ao estudioso o discernimento entre o que é Justiça do amor em Jesus Cristo e o que é Justiça da retribuição do Antigo Testamento, copiada pelos Estados constituídos atuais.

Tais princípios merecem ser destacados, conforme adiante se vê:

  • - O primeiro princípio: Deus é amor.
  • - Segundo princípio: De Deus Pai só se recebe dádivas boas.
  • - Terceiro princípio: Pelas suas obras Deus é conhecido.
  • - Quarto princípio: Deus não tenta ninguém.
  • - Quinto princípio: Deus não vacila.
  • - Sexto princípio: Deus se revela em Jesus.
  • - Sétimo princípio: Ninguém jamais viu a Deus.
  • - Oitavo princípio: O Verdadeiro Deus não tira a vida, dá a vida.
  • - Nono princípio: Deus ama a todos.
  • - Décimo princípio: Deus não julga a ninguém.
  • - Décimo primeiro princípio: Deus é Espírito.
  • - Décimo segundo princípio: O Espírito Santo é dádiva de Jesus.
  • A Humanidade só recebeu o verdadeiro Espírito Santo com a ressurreição de Jesus Cristo.

 

Do Evangelho de João no capítulo 16, versículo 5 em diante Diz Jesus:


No entanto eu vos digo a verdade é do vosso interesse que eu parta, pois, se eu não for, o Paráclito não virá a vós. Mas se eu for, enviá-lo-ei a vós. E quando ele vier, estabelecerá a culpabilidade do mundo, a respeito do pecado, da justiça e do julgamento: do pecado, porque não crêem em mim; da justiça, porque vou para o Pai e não mais me vereis; do julgamento, porque o Príncipe deste mundo esta julgado. Tenho muito que vos dizer, mas não podeis agora suportar. Quando vier o Espírito da Verdade ele vos conduzirá à verdade plena, pois não falará de si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido e vos anunciará as coisas futuras. Ele me glorificará porque receberá do que é meu e vos anunciará.

Diz Bittar “É nesse plus que reside o diferencial do cristão para o não-cristão. Nesse sentido, seguir a regra cristã é governar-se por essas máximas”.

Ainda há muitos outros princípios ensinados e vividos por Jesus, mas esses já são suficientes para dirimir qualquer duvida quanto a justiça nas Escrituras do Antigo e Novo Testamento.

A humanidade passa compreender a diferença entre a Justiça do Amor em Jesus Cristo e a Justiça da doutrina de Javé a partir do momento em que o Espírito Santo revela a condição a que está submetida a vida humana.

Com base nas revelações do Espírito Santo segue-se ao quarto capítulo desta monografia, tratando-se especificamente da Justiça nas Sagradas Escrituras.
 

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